[Des]congelar - Dän Furmänkiewicz
Durante algum tempo, ela silenciou sonhos,
desgarrou-se de algumas das pequenas dúvidas que lhe agrediam a alma,
espreitou a realidade, amorteceu quedas.
Seus pensamentos estalavam ao frio impiedoso que lhe congelava a mente.
Congelar...!
Desejou ser um inverno sólido,
ter a superfície fria do mármore e explorar os cantos mórbidos da solidão.
E assim seria, até que seu ar começasse a voltar aos poucos,
até que todas as suas letras (internas letras) gritassem por liberdade.
Seria agora o momento propício...? Todas as telas em branco lhe ameaçavam,
cores jogadas pelo chão e uma densidade estranha no ar,
como se o final daquele dia se transformasse em presságios.
Tentou um suicídio íntimo, mais um diálogo inexistente entre desejos e possibilidades.
A sua realidade intensa lhe escapava ao toque dos lábios na taça,
repleta por um vinho ordinário. A sonolência seria, então, a sua amiga-artista...
e esculpiria seu corpo inteiro, talhando ilusões onde não existem. Para quê o despertar,
se o improvável se transforma quando os olhos estão [quase] cerrados?
Sobre a mesa, o retrato da distância lhe sorria.
E ela sentia que esta mesma distância lhe observava, sádica, com uns olhos azuis de quem nada tem a dizer.
Das paredes de seu quarto, escorriam imagens e reflexos abstratos que iam estacionar em seu abdômen nu...
era a janela aberta que abrigava as últimas gotas de uma tempestade lúdica.
Abraçou o travesseiro, buscou em si um pouco mais de si...
e encontrou apenas algumas palavras que lhe agradavam
e que abrigavam significados muito mais fortes do que ela poderia supor.
Suavemente, o passado conseguiu tocar-lhe a face...
deslizou sobre seu colo e, virando presente, adormeceu.
Mas pequenas partes desta bela criança silenciosa iam desfalecendo aos poucos,
transformando-se em um futuro próximo... ou longínquo... ou imprevisível...!
A palidez de uma lua inquieta acomodava-se em seus poros e agora,
ela não sabia mais se era mulher ou lua, ou simplesmente viagem inconsciente de um poeta.
Apagou adjetivos e contornou a simplicidade com a ponta dos dedos,
como se estes pudessem percorrer caminhos venosos que a levassem até um coração qualquer.
E todo o entendimento que pudesse existir, aniquilava impiedosamente...
pois destruir entendimentos significa libertar essências.
Não decidiria mais nada por hoje,
seria simplesmente um atalho concreto que ligaria o interior de suas vontades a tudo o que é externo.
Quando seus olhos se fecharam, ela sentiu seu corpo ultrapassando os limites de todas as coisas do mundo.
Suspirou profundamente... descobriu que jamais seria compreendida,
pois as explicações sofriam, em todos os corpos, estranhas metamorfoses por segundo.
O despertador a encarava com uma ironia única
e guardava dentro de si todo o tempo que restava para que aquela noite se tornasse dia.
Ela sorriu ao imaginar que amanhã seria outra, completamente renovada e que desta outra viriam mais algumas.
E foi assim que conseguiu alcançar novamente o seu mundo paralelo à realidade...
foi derretendo, aos poucos, o gelo que lhe bloqueava os sentidos...
atingindo a única compreensão que lhe interessava no momento:
viver é inexplicável.
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